
HOMILIA
"Mestre, qual é o grande mandamento da lei?
JESUS lhe disse: Amarás o Senhor teu DEUS de todo o teu coração,
de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo
e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás
o teu próximo como a ti mesmo."
(Mateus - Cap. 22 - item 36)
Meus irmãos. Meus amigos.
Nas redondezas de RENNES, sob o frígido tempo dum dezembro, às
vésperas do Natal, um homem alto e forte, de longos cabelos louros, de
sotaina e capa curta com capuz, de grosso burel de lã cinzenta, calçado
de rústicas sandálias, caminha a passos firmes pelo campo que a
neve já embranquece. Em seu olhar límpido e tranqüilo,
transparece a alegria do dever cumprido e sua mente devaneia com a lembrança
de episódios recentes em que pudera atuar na defesa de pes-soas humildes,
aguilhoadas pela injustiça. Sempre preocupado com os carentes, aos quais,
no mo-desto povoado, servia com solícita atenção, havia
pouco antes, eloqüente orador, seguro e persuasivo, conseguido impedir que
outra viúva aflita fosse espoliada.
No trajeto, duas mulheres, demandando o mesmo destino, dele se
aproximam e passam a acompanhá-lo, em amena conversa. Em dado instante,
de miserável cabana, um indigente suplica uma esmola, queixando-se de
fome e frio. Não tendo, então, moeda alguma, o caminhante conforta
o pedinte com palavras animosas e o agasalha com a capa e o capuz. Segue,
depois, a jornada sem temer o vento gélido. Após largo trecho, as
mulheres, que lhe haviam admirado o gesto nobre, se surpreendem, vendo-lhe,
sobre a cabeça, um capuz em tudo semelhante ao que dera ao mendigo. Também
assustado pela inesperada dádiva recebida do céu, o peregrino se
ajoelha, com serena humildade, e, batendo contritamente no peito, diz:
"Senhor JESUS! Eu vos dou graças pelo dom que acabais de
conceder-me."
O viajor, já perceberam, era YVES HELORI DE KERMARTIN, o
sacerdote, o juiz, o advogado de TREGUIER, o SANTO IVO, cuja memória
hoje nos reúne em sua homenagem e recordação.
De origem nobre, dotado de grande cultura, aprimorada nas longas vigílias
e no jejum prolongado, sua maior virtude era, contudo, a humildade. Modesto,
despido de qualquer vaidade, sempre pronto a todos os sacrifícios para o
bem do próximo necessitado, o jovem IVO, Cavaleiro da Ordem do Santo
Sepulcro desde os 14 anos, estava, realmente, votado ao sacerdócio. E
quis a Providência, em seus inescrutáveis desígnios, que
viesse a desempenhar, também, já formado em direito, a função
de juiz provisor do Bispado de RENNES e de TREGUIER. Nessa delicada tarefa,
desvelou-se como ninguém na aplicação da verdadeira Justiça,
aquela que, mitigando o rigor da lei e sopesando a prova, contempla os
desvalidos contra os poderosos.
Por isso, a história o aponta como advogado exemplar, defensor
das viúvas, dos órfãos e dos pobres, que sabia, como rezava
o seu lema e o deveríamos saber todos nós, que não há
Justiça sem caridade. Assim agia, na linha de sua resposta, quase menino,
ao ser sagrado Cavaleiro:
"Juro pela pureza das minhas intenções. Quero
ser a fortaleza dos fracos, dos humildes, dos pobres e dos necessitados!"
De fato, seguidores do verbo de Cristo, cumpre-nos ter sempre presente
o ensinamento do Apóstolo Maior, no exercício dos nossos misteres:
"O amor do próximo não faz o mal. Logo, o amor do
próximo é o complemento da lei." Dedicados à memória
do nosso Padroeiro, é nosso dever, como cristãos, seguir-lhe o
exemplo. Se a lei é justa apenas na aparência, pugnemos para que a
vivifique o espírito da caridade, o amor do próximo que é
seu complemento e mesmo sua razão de ser. Se a lei é injusta,
lutemos para que seja revogada, e, se tiver de ser cumprida, para que a sua
aplicação não multiplique as injustiças,
mitigando-lhe o rigor, infundindo-lhe a vivência cristã.
Meus amigos. Meus irmãos.
Numa época em que a crença no valor do ser humano, por
desinformação ou informação equivocada, se apresenta
mais frágil; em que a credibilidade do Poder Público, em qualquer
de seus ramos, parece afundar num poço de lama na visão do homem
comum, quase sempre mal-informado ou induzido a crer em conclusões
destituídas de provas; e em que a própria noção do
direito e do senso do dever social surge distorcida, conduzindo tanta gente de
boa-fé a atos impensados e de nefastas conseqüências para a
humanidade em geral; e neste tempo de transformações sociais em
todo o mundo, quando se busca assegurar, também nas nações
menos desenvolvidas, o desfrute pleno da vivência democrática,
valorizando o ser humano, mais se acentua em nós, homens dedicados à
defesa do Direito e à realização da Justiça, nos vários
ofícios cujo cumprimento nos dignifica, o dever de contribuir, na luta
cotidiana, como SANTO IVO, para a elevação dos costumes e a
garantia de vida digna, notadamente aos mais humildes e necessitados, que hoje
compõem, desde a mais tenra idade, enorme contingente da população
brasileira.
Advogados em sentido amplo que todos somos, certos de que a lei e a
nossa consciência são os dois únicos poderes humanos a que
devemos servir, batalhemos sempre, como fiéis discípulos de
Cristo, no sentido de aprimorar a aplicação da Justiça, em
que pesem os sacrifícios a nós continuamente impostos, para que se
realize inspirada na caridade. Não importa o preço, vale sempre,
como exemplo, a coragem indormida de SANTO IVO.
Desse ensinamento, haurido na prática e na prédica de
uma existência inteira a serviço do Bem, flui-nos a todos quantos,
por dever de ofício e, mesmo, cidadãos comuns, cultuam a Justiça,
a convicção da constante presença de SANTO IVO em nosso
labor cotidiano, como orientação e, ainda, como advertência.
Pois, como ele o revelou, as virtudes do homem da Justiça - e o somos
todos em extensão maior - são a probidade e a competência,
comuns e naturais a toda atividade honesta e, ainda e principalmente, o amor à
verdade, que desvenda e impõe a causa justa. Ora, a verdade não é
jamais perfunctória ou superficial. Para corresponder ao espírito
de Justiça, há de ser transparente e profunda, com raízes
firmes na razão maior a indicar que o homem, ser eminentemente gregário,
é criatura de Deus e merece ser tratado com essa dignidade.
Com esse escopo, para exercer em plenitude o mandamento seguido por
SANTO IVO, o cristão vindica a realização da Justiça
social. Com esse espírito, na linha do juramento desse patrono singular,
cumpre-nos, homens da Justiça, envidar todos os esforços possíveis
para trazer as grandes parcelas da população atualmente no limiar
da miséria à condição de vida digna e decente,
embora modesta, em estrita fidelidade ao ensinamento do Cristo.
Meus bons amigos. Em reverência ao nosso Patrono, pedindo e
buscando o fervor que o inspirava, cultuemos a sua memória e invoquemos o
seu auxílio nesta Santa Missa em seu nome:
"Glorioso SANTO
IVO, lírio da pureza, apóstolo da caridade e defensor intrépido
da Justiça, vós que, vendo, nas leis humanas, um reflexo da Lei
eterna, soubestes conjugar, maravilhosamente, os postulados da Justiça e
o imperativo do amor cristão, assisti, iluminai, fortalecei a classe
jurista, os nossos juízes e advogados, os cultores e intérpretes
do Direito, para que, nos seus ensinamentos e decisões jamais se afastem
da eqüidade e da retidão. Amem eles a Justiça, para que
consolidem a paz; exerçam a caridade, para que reine a concórdia;
defendam e amparem os fracos e desprotegidos, para que, pospostos todo
interesse subalterno e toda afeição de pessoas, façam
triunfar a sabedoria da lei sobre as forças da injustiça e do mal.
Olhai, também, para nós, glorioso SANTO IVO, que desejamos copiar
os vossos exemplos e imitar as vossas virtudes. Exercei, junto ao trono de Deus,
vossa missão de advogado e protetor nosso, a fim de que nossas preces
sejam favoravelmente despachadas e sintamos os efeitos do vosso poderoso patrocínio.
Amém."
Dr. Ruy Homem de Melo Lacerda