Missa de Santo Ivo
19.05.1997


HOMILIA

"Mestre, qual é o grande mandamento da lei? JESUS lhe disse: Amarás o Senhor teu DEUS de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

(Mateus - Cap. 22 - item 36)

Meus irmãos. Meus amigos.

Nas redondezas de RENNES, sob o frígido tempo dum dezembro, às vésperas do Natal, um homem alto e forte, de longos cabelos louros, de sotaina e capa curta com capuz, de grosso burel de lã cinzenta, calçado de rústicas sandálias, caminha a passos firmes pelo campo que a neve já embranquece. Em seu olhar límpido e tranqüilo, transparece a alegria do dever cumprido e sua mente devaneia com a lembrança de episódios recentes em que pudera atuar na defesa de pes-soas humildes, aguilhoadas pela injustiça. Sempre preocupado com os carentes, aos quais, no mo-desto povoado, servia com solícita atenção, havia pouco antes, eloqüente orador, seguro e persuasivo, conseguido impedir que outra viúva aflita fosse espoliada.

No trajeto, duas mulheres, demandando o mesmo destino, dele se aproximam e passam a acompanhá-lo, em amena conversa. Em dado instante, de miserável cabana, um indigente suplica uma esmola, queixando-se de fome e frio. Não tendo, então, moeda alguma, o caminhante conforta o pedinte com palavras animosas e o agasalha com a capa e o capuz. Segue, depois, a jornada sem temer o vento gélido. Após largo trecho, as mulheres, que lhe haviam admirado o gesto nobre, se surpreendem, vendo-lhe, sobre a cabeça, um capuz em tudo semelhante ao que dera ao mendigo. Também assustado pela inesperada dádiva recebida do céu, o peregrino se ajoelha, com serena humildade, e, batendo contritamente no peito, diz:

"Senhor JESUS! Eu vos dou graças pelo dom que acabais de conceder-me."

O viajor, já perceberam, era YVES HELORI DE KERMARTIN, o sacerdote, o juiz, o advogado de TREGUIER, o SANTO IVO, cuja memória hoje nos reúne em sua homenagem e recordação.

De origem nobre, dotado de grande cultura, aprimorada nas longas vigílias e no jejum prolongado, sua maior virtude era, contudo, a humildade. Modesto, despido de qualquer vaidade, sempre pronto a todos os sacrifícios para o bem do próximo necessitado, o jovem IVO, Cavaleiro da Ordem do Santo Sepulcro desde os 14 anos, estava, realmente, votado ao sacerdócio. E quis a Providência, em seus inescrutáveis desígnios, que viesse a desempenhar, também, já formado em direito, a função de juiz provisor do Bispado de RENNES e de TREGUIER. Nessa delicada tarefa, desvelou-se como ninguém na aplicação da verdadeira Justiça, aquela que, mitigando o rigor da lei e sopesando a prova, contempla os desvalidos contra os poderosos.

Por isso, a história o aponta como advogado exemplar, defensor das viúvas, dos órfãos e dos pobres, que sabia, como rezava o seu lema e o deveríamos saber todos nós, que não há Justiça sem caridade. Assim agia, na linha de sua resposta, quase menino, ao ser sagrado Cavaleiro:

"Juro pela pureza das minhas intenções. Quero ser a fortaleza dos fracos, dos humildes, dos pobres e dos necessitados!"

De fato, seguidores do verbo de Cristo, cumpre-nos ter sempre presente o ensinamento do Apóstolo Maior, no exercício dos nossos misteres:

"O amor do próximo não faz o mal. Logo, o amor do próximo é o complemento da lei." Dedicados à memória do nosso Padroeiro, é nosso dever, como cristãos, seguir-lhe o exemplo. Se a lei é justa apenas na aparência, pugnemos para que a vivifique o espírito da caridade, o amor do próximo que é seu complemento e mesmo sua razão de ser. Se a lei é injusta, lutemos para que seja revogada, e, se tiver de ser cumprida, para que a sua aplicação não multiplique as injustiças, mitigando-lhe o rigor, infundindo-lhe a vivência cristã.

Meus amigos. Meus irmãos.

Numa época em que a crença no valor do ser humano, por desinformação ou informação equivocada, se apresenta mais frágil; em que a credibilidade do Poder Público, em qualquer de seus ramos, parece afundar num poço de lama na visão do homem comum, quase sempre mal-informado ou induzido a crer em conclusões destituídas de provas; e em que a própria noção do direito e do senso do dever social surge distorcida, conduzindo tanta gente de boa-fé a atos impensados e de nefastas conseqüências para a humanidade em geral; e neste tempo de transformações sociais em todo o mundo, quando se busca assegurar, também nas nações menos desenvolvidas, o desfrute pleno da vivência democrática, valorizando o ser humano, mais se acentua em nós, homens dedicados à defesa do Direito e à realização da Justiça, nos vários ofícios cujo cumprimento nos dignifica, o dever de contribuir, na luta cotidiana, como SANTO IVO, para a elevação dos costumes e a garantia de vida digna, notadamente aos mais humildes e necessitados, que hoje compõem, desde a mais tenra idade, enorme contingente da população brasileira.

Advogados em sentido amplo que todos somos, certos de que a lei e a nossa consciência são os dois únicos poderes humanos a que devemos servir, batalhemos sempre, como fiéis discípulos de Cristo, no sentido de aprimorar a aplicação da Justiça, em que pesem os sacrifícios a nós continuamente impostos, para que se realize inspirada na caridade. Não importa o preço, vale sempre, como exemplo, a coragem indormida de SANTO IVO.

Desse ensinamento, haurido na prática e na prédica de uma existência inteira a serviço do Bem, flui-nos a todos quantos, por dever de ofício e, mesmo, cidadãos comuns, cultuam a Justiça, a convicção da constante presença de SANTO IVO em nosso labor cotidiano, como orientação e, ainda, como advertência. Pois, como ele o revelou, as virtudes do homem da Justiça - e o somos todos em extensão maior - são a probidade e a competência, comuns e naturais a toda atividade honesta e, ainda e principalmente, o amor à verdade, que desvenda e impõe a causa justa. Ora, a verdade não é jamais perfunctória ou superficial. Para corresponder ao espírito de Justiça, há de ser transparente e profunda, com raízes firmes na razão maior a indicar que o homem, ser eminentemente gregário, é criatura de Deus e merece ser tratado com essa dignidade.

Com esse escopo, para exercer em plenitude o mandamento seguido por SANTO IVO, o cristão vindica a realização da Justiça social. Com esse espírito, na linha do juramento desse patrono singular, cumpre-nos, homens da Justiça, envidar todos os esforços possíveis para trazer as grandes parcelas da população atualmente no limiar da miséria à condição de vida digna e decente, embora modesta, em estrita fidelidade ao ensinamento do Cristo.

Meus bons amigos. Em reverência ao nosso Patrono, pedindo e buscando o fervor que o inspirava, cultuemos a sua memória e invoquemos o seu auxílio nesta Santa Missa em seu nome:

"Glorioso SANTO IVO, lírio da pureza, apóstolo da caridade e defensor intrépido da Justiça, vós que, vendo, nas leis humanas, um reflexo da Lei eterna, soubestes conjugar, maravilhosamente, os postulados da Justiça e o imperativo do amor cristão, assisti, iluminai, fortalecei a classe jurista, os nossos juízes e advogados, os cultores e intérpretes do Direito, para que, nos seus ensinamentos e decisões jamais se afastem da eqüidade e da retidão. Amem eles a Justiça, para que consolidem a paz; exerçam a caridade, para que reine a concórdia; defendam e amparem os fracos e desprotegidos, para que, pospostos todo interesse subalterno e toda afeição de pessoas, façam triunfar a sabedoria da lei sobre as forças da injustiça e do mal. Olhai, também, para nós, glorioso SANTO IVO, que desejamos copiar os vossos exemplos e imitar as vossas virtudes. Exercei, junto ao trono de Deus, vossa missão de advogado e protetor nosso, a fim de que nossas preces sejam favoravelmente despachadas e sintamos os efeitos do vosso poderoso patrocínio.

Amém."

Dr. Ruy Homem de Melo Lacerda