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Suplemento
19.05.99
"Ó Deus de Misericórdia, dignai-vos conceder-me a graça de desejar com ardor o que é do Vosso agrado, procurá-lo com prudência, reconhecê-lo com sinceridade e cumpri-lo com perfeita fidelidade para honra e glória do Vosso Nome. Amém."
Assim rezava, no início de cada estudo ou trabalho, o Santo Padroeiro que hoje reverenciamos, recordando, no aniversário de sua morte, há 696 anos, o seu insuperável ensinamento durante uma vida inteira dedicada a fazer o bem e amar ao próximo.
Nessa fecunda existência, coroada pela santificação, correspondeu, sempre, ao juramento que fizera, no verdor dos seus quatorze anos, na Catedral de Treguier, no norte da França, ao ser sagrado Cavaleiro da Ordem do Santo Sepulcro:
"Juro pela pureza das minhas intenções. Quero ser a fortaleza dos fracos, dos humildes, dos pobres e dos necessitados."
Fiel a esse ideário, que realizou como advogado e juiz da arquidiocese, então com 26 anos, e depois sacerdote, deixou-nos lição de vida que constitui paradigma a ser seguido. Advogado, empenhado na defesa dos desprotegidos, a quem assistia gratuitamente, elaborou um decálogo para a nossa vida profissional que é, ainda hoje, modelo de difícil mas imperativa observância. Juiz sempre atento às exigências do cargo, buscou realizar a justiça em conformidade com os mandamentos da fé cristã, criando a isenção de custas para os necessitados e confiando a sua defesa aos advogados mais notáveis pelo saber e probidade. Sacerdote, despido das vaidades do mundo, despojado, voluntariamente, de todos os bens em favor dos desamparados, de acordo com a sua vocação franciscana, foi sempre verdadeiro discípulo de Cristo, no exercício pleno da virtude ditada aos apóstolos no tempo da paixão:
"Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também deveis amar-vos uns aos outros. Nisso conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."
(João, XIII, 34/35)
É esta figura modelar de homem e de cidadão que estamos rememorando na igreja erigida em sua homenagem e que nos reúne nesta data, juízes, advogados, promotores públicos, delegados, bacharéis em direito, em suma, gente de fé, irmanados no propósito de seguir sempre as suas lições de desprendimento na busca de uma sociedade mais fraterna.
Seu ensinamento, cumprido na prática e na prédica de uma existência inteira a serviço do Bem, flui a todos nós a convicção de sua constante presença em nosso labor cotidiano, como orientação e, mesmo, como advertência. Pois, como ele o revelou, as virtudes do homem de justiça - e somos todos nós - são a probidade e a competência, comuns e naturais a toda atividade honesta, e, ainda e principalmente, o amor à verdade, que desvenda e impõe a causa justa. Ora, a verdade não é jamais perfunctória ou superficial. Para corresponder ao espírito de justiça, há de ser sempre transparente e profunda, com raízes firmes na razão maior a indicar que o homem, ser eminentemente gregário, é criatura de Deus e merece ser tratado com essa dignidade.
Essa dignidade, a que faz jus o menor dos cidadãos, o mais humilde e o mais desprotegido, dá a verdadeira dimensão à justiça em nossos dias, que não é apenas aquela praticada nos pretórios, ainda sujeita a parâmetros incondizentes com o mandamento maior do cristão.
(Matheus, XXII, 37/40)"Mestre, qual é o maior mandamento da lei?"
Respondeu JESUS: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito (Deut, 6, 5). Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lev., 19, 18). Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os profetas."
Com esse escopo, para exercer em sua plenitude esses mandamentos, o cristão vindica o exercício da justiça social, cada vez mais imperativa em face dos graves problemas que vem sofrendo a nossa sociedade, em todo o mundo, e, assim, também em nosso país, agravado pela extensão da miséria e pela expansão da violência. Assim, para o alcance do nosso objetivo, com a inspiração sempre presente do nosso patrono, cumpre-nos, homens da justiça, permanecer atentos na busca de soluções adequadas e oportunas para o encontro e a permanência de uma sociedade verdadeiramente justa.
Realmente, na linha de atuação do nosso inspirador SANTO IVO, ainda e sempre preocupados com o futuro deste país continente, ensombrecido pela multidão de crianças e até famílias famintas, vivendo miseravelmente nas ruas e viadutos, e desconsiderado pelo acúmulo de atos criminosos, praticados em toda parte, sem a devida e segura repressão, é nosso imperioso dever prosseguir unidos no encontro de medidas que propiciem e assegurem a realização da verdadeira justiça social.
Nesta época de transformações sociais em todo o mundo, quando se procura assegurar, também nas nações menos desenvolvidas, o desfrute pleno da vivência democrática, valorizando o ser humano, criatura de Deus, e, no universo globalizado, impedir a destruição de populações inteiras, com base no racismo ou outro pretexto, como ocorre, por exemplo, na Iugoslávia, mais se deve acentuar em nós, homens dedicados à defesa do Direito e à realização da Justiça, o dever de contribuir, na luta cotidiana, como SANTO IVO, para a elevação dos costumes e a garantia de vida digna, notadamente aos mais humildes e desassistidos, que hoje abrangem grande porção da coletividade brasileira.
Que o seu exemplo nos inspire, na certeza de atender, com esse comportamento, à lição maior da nossa fé, deixada pelo Divino Mestre. E que saibamos, como nos orienta o Decálogo herdado de SANTO IVO, pedir a ajuda de Deus nas nossas demandas e nos atos de auxílio que a fé nos aconselha e determina, pois Ele é o primeiro protetor da Justiça.
Meus bons amigos: em reverência ao nosso patrono, no desempenho das nossas tarefas ligadas ao seu nobre e dignificante ofício, rezemos, sempre, como ele, invocando a proteção do Altíssimo:
"Concedei-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Te conheça, uma angústia que Te procure, uma sabedoria que Te encontre, uma vida que Te agrade, uma perseverança que Te espere com confiança, e uma confiança que Te possua.
Amém."
RUY HOMEM DE MELO LACERDA