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Suplemento
19.05.2000
"Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do
reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim."Perguntar-lhe-ão os justos: "Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos; nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?"
Responderá o Rei: "Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes".
(Mateus, cap. XXV, 34/40)
Meus irmãos. Meus amigos.
Nas redondezas de Rennes, sob o frígido tempo dum Dezembro, às vésperas do Natal, um homem alto e forte, de longos cabelos louros, de sotaina e capa curta com capuz, de grosso burel de lã cinzenta, calçado de rústicas sandálias, caminha a passo firme pelo campo que a neve já embranquece. Em seu olhar límpido e tranqüilo, transparece a alegria do dever cumprido e sua mente devaneia com a lembrança de episódios recentes em que pudera atuar na defesa de pessoas humildes, aguilhoadas pela injustiça. Sempre preocupado com os carentes, aos quais, no modesto povoado, servia com solícita atenção, havia, pouco antes, eloqüente orador, seguro e persuasivo, conseguido impedir que outra viúva aflita fosse espoliada.
No trajeto, duas mulheres, visando o mesmo destino, dele se aproximam e passam a acompanhá-lo, em amena conversa. Em dado instante, de miserável cabana, um indigente suplica uma esmola, queixando-se de fome e de frio. Não tendo, então, moeda alguma, o caminhante conforta o pedinte com palavras animosas e o agasalha com a capa e o capuz. Segue, depois, a jornada sem temer o vento gélido. Após um largo trecho, as mulheres, que Ihe haviam admirado o gesto nobre, se surpreendem, vendo em sua cabeça um capuz em tudo semelhante ao que dera ao mendigo. Também assustado pela inesperada dádiva recebida do céu, o peregrino se ajoelha, com serena humildade, e, batendo contritamente no peito, diz:
"Senhor Jesus: Eu vos dou graças pelo dom que acabais de conceder-me."
O viajor, já perceberam, era Yves Helori de Kermartin, o sacerdote, o juiz, o advogado de Treguier, o Santo Ivo, cuja memória hoje nos reúne.
De origem nobre, dotado de grande cultura, aprimorada nas longas vigílias e no jejum prolongado, sua maior virtude era, contudo, a humildade. Modesto, despido de qualquer vaidade, sempre pronto a todos os sacrifícios para o bem do próximo necessitado, o jovem Ivo estava, realmente, votado ao sacerdócio. E quis a Providência, em seus inescrutáveis desígnios, que viesse a desempenhar, também, a função de Juiz provisor do Bispado de Rennes e Treguier. Nessa delicada tarefa, desvelou-se como ninguém na aplicação da verdadeira justiça, aquela que, mitigando o rigor da lei e sopesando a prova, contempla os desvalidos contra os poderosos.
Por isso, a história o aponta como advogado exemplar, defensor das viúvas, dos órfãos e dos pobres, que sabia, como revelava seu lema, o que deveríamos saber todos nós, que não há justiça sem caridade.
De fato, seguidores do verbo de Cristo, cumpre-nos ter sempre presente o ensinamento do Apóstolo Maior, no exercício dos nossos misteres:
"O amor do próximo não faz o mal. Logo, o amor do próximo é o complemento da lei."
É a lembrança desse espírito de escol, verdadeiro discípulo de Cristo, votado à pratica cotidiana do mandamento maior, que é o amor a Deus refletido na permanente dedicação ao próximo (João, cap. XIII, 34/35), que aqui novamente nos reúne, como exemplo ímpar a ser seguido. Recordamos a figura imorredoura do homem de intenções puras, que jurou e foi a fortaleza dos fracos, dos humildes, dos pobres e dos necessitados, como integrante da Ordem desde a juventude. Que assim prosseguiu, como advogado, na defesa dos carentes de recursos, titulares de direitos ameaçados pelos poderosos do tempo, obediente ao decálogo que formulou para a vida profissional, paradigma de difícil mas imperativa observância. Que continuou, desse modo, a atuar como juiz sempre atento às exigências do cargo, buscando realizar a justiça em conformidade com os mandamentos da fé cristã, criando a isenção de custas para os desfavorecidos de fortuna e confiando a sua defesa aos advogados mais notáveis pelo saber e probidade. E que, sacerdote modelar, despido das vaidades do mundo, despojado voluntariamente de todos os seus bens em favor dos desamparados, atingiu a justa culminância da santidade.
Meus amigos:
Numa época em que o vertiginoso progresso das comunicações invade o universo e, estranhamente, melhor se propagam as más e as falsas notícias, surpreendendo, em sua boa-fé, o homem comum, é confortante para nós, que aqui nos congraçamos, lembrar o nosso padroeiro, Santo Ivo, advogado, juiz e sacerdote. Do ensinamento que nos transmite, cumprido na prática e na prédica de uma existência inteira a serviço do Bem, flui, ainda e sempre, a todos nós, que o veneramos, a convicção de sua presença em nossa labuta diária, como orientação e, mesmo, como advertência. Pois, como ele evidenciou, as virtudes do homem de justiça - e somos todos nós - são a probidade e a competência, comuns e naturais a toda atividade honesta, e, ainda e principalmente, o amor à verdade, que desvenda e impõe a causa justa. E a verdade, vale repetir, não é jamais perfunctória ou superficial. Para corresponder ao espírito de justiça, há que ser transparente e profunda, com raízes firmes na razão maior a indicar que o homem, ser eminentemente gregário, é criatura de Deus e merece ser tratado com essa dignidade.
Essa dignidade, a que faz jus o menor dos cidadãos, o mais humilde e o mais desprotegido (e seu número continua crescendo, com a situação econômica que vive nosso país), essa dignidade, insisto, dá a verdadeira dimensão da justiça social em nossos dias, que não é apenas aquela praticada nos pretórios, ainda sujeita a parâmetros incondizentes com o mandamento maior do cristão.
"Mestre, qual é o maior mandamento da lei?" Respondeu Jesus: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito" (Deut. 6, 5). Este é o maior e o primeiro mandamento. Semelhante a este é: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo" (Lev. 19,18). Nesses dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas.
(Mateus, XXIII, 37/40)
Com esse objetivo na linha do comportamento que marcou a vida e a obra do nosso patrono, visando exercer em sua inteireza esses mandamentos, o cristão que somos todos devemos vindicar o exercício da Justiça social. De fato, como ponderei em outra oportunidade, antes da atual Carta Magna, e em posteriores congressos de classe, cumpre-nos, homens da justiça, envidar todos os esforços possíveis para trazer as grandes parcelas da população ainda no limiar da miséria à condição de vida digna e decente, embora modesta, a fim de sermos permanentemente fiéis ao ensinamento de Cristo. O futuro deste país continente continuará ensombrecido pela multidão de crianças famintas e em abandono material e moral, ainda ensurdecida boa parte dos Poderes Públicos, nas várias esferas, ao clamor desses fatos próprios de um quarto mundo. Cabe a nós todos, advogados, juízes, promotores de justiça, delegados de polícia, bacharéis em direito, homens que cultuamos o direito, a lei e a justiça, isoladamente, em grupo ou em concurso com entidades dedicadas à defesa dos interesses coletivos e sociais, perseverar na perseguição desse escopo de nação verdadeiramente civilizada e iluminada pela fé cristã.
Nesse encontro solene, em que invocamos nosso patrono, como guia e mestre Santo Ivo, busquemos seu exemplo, na medida de nossas forças e em quanto nos competir, por vocação profissional, no trabalho diuturno exercido com dignidade, para fazer estreitar o caminho que leva da justiça estrita à abundância da caridade, que é o nome da verdadeira justiça. Somente assim, imbuídos desse espírito, poderemos ser dignos da sua memória, repetindo a oração de São Francisco:
"Senhor, fazei-me instrumento de vossa Paz: Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei com que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado; e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Amém."
RUY HOMEM DE MELO LACERDA