Editorial
ADVOGADOS NÃO SÃO BANDIDOS
Só Estados opressores
têm interesse na deterioração da advocacia, porque, sem ela,
quem haverá para reclamar direitos e exigir justiça?
A nossa República, que
já foi dos bacharéis num tempo em que aquela elite luminar
dominava a cena política, hoje ressente-se pela conduta de
indivíduos que se valem da condição de advogado para praticar
toda sorte de crimes e imoralidades. Embora portando a insígnia
de advogado, não o são, absolutamente. Não merecem o honroso
título.
Ser bacharel em direito
e inscrito nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil não é
suficiente. O preenchimento desses dois requisitos da lei de
forma alguma os capacita para serem advogados na acepção da
palavra, que traduz conteúdo bem mais exigente. Temos de
reconhecer: é preciso muito mais.
Ética, bom nível
intelectual e domínio do conhecimento jurídico são atributos
inseparáveis do advogado, entre outras tantas qualidades que
dele se pode esperar.
Contribuiu para o atual
desgaste da profissão perante a opinião pública a indiscriminada
abertura de faculdades de direito, que “despejam” bacharéis
despreparados em um mercado de trabalho já saturado. Empresários
do ensino transformaram cursos de direito em negócio altamente
rentável, relegando a plano inferior o desenvolvimento dos
estudantes.
A OAB, por seu turno,
negligenciou a admissão de novos advogados, concedendo inscrição
para quem não detinha condições de exercício condigno da
profissão - a seccional paulista, todavia, vem praticando severa
redução de aprovações.
Ao mesmo tempo, a
sociedade brasileira sofreu sensível empobrecimento ético e
cultural, fenômeno, aliás, que colaborou para o decréscimo
qualitativo do exercício de todas as profissões.
Esse conjunto de
anormalidades gerou a má-formação de um certo número, embora
limitado, de profissionais da advocacia. É com eles que temos
nos defrontado atualmente; pseudoprofissionais portando carteira
de advogado e servindo-se dela para condutas nada compatíveis
com o seu mister. Devemos repisar enfaticamente que esse não é o
verdadeiro advogado, mas apenas alguém que se infiltrou na
profissão para servir-se dela como álibi.
A imprensa
diuturnamente alardeia essa indigência ética, expondo condutas
estranhas à profissão ao escárnio popular. Aqui é preciso dizer
que a mídia, por vezes, ao analisar condutas de advogados,
também erra muito, ora por absoluto desconhecimento das questões
jurídicas, ora por deliberada intenção de criar o
sensacionalismo.
Nesse lastimável
cenário, a advocacia inteira está sendo arrastada injustamente
para uma situação de descrédito, passando a valer como regra o
que jamais deixou de ser exceção.
Em contraposição a tudo
isso, existe um enorme contingente de homens e mulheres
honrados, preparados, lutando, dia após dia, para demandar o
direito do nosso povo.
Há nesse respeitável
grupo, que representa a expressiva maioria dos advogados
brasileiros, excelentes profissionais, de todos os matizes.
Nenhum deles se verga ao autoritarismo nem compactua com o
embuste. Impressiona ver como tantos e tão bons podem existir
ainda agora.
Atuam em toda parte,
dos juizados especiais às cortes superiores, defendendo o que é
justo, retirando o Direito dos livros para transformá-lo em uma
experiência viva.
Antes de enxovalhar a
totalidade da classe composta por profissionais corretos e
dedicados, é preciso alertar a sociedade sobre o perigo que
representa o enfraquecimento da advocacia para o Estado
democrático de Direito. O advogado é quem necessariamente
estabelece o elo entre o cidadão e o seu direito.
Aquele que seja
detentor de algum direito quase sempre necessitará da
assistência de um advogado para guiá-lo diante do complexo
conjunto de normas que asseguram o convívio social. Apenas os
Estados opressores têm interesse na deterioração da advocacia,
porque, sem ela, quem haverá para reclamar direitos e exigir
justiça? Em períodos de ocaso democrático, a advocacia e suas
organizações não retrocedem e sempre pontificam a luta por dias
melhores, com paz social e garantias fundamentais.
Ainda carece temer a
retirada ou o desrespeito a suas prerrogativas, que servem ao
livre e eficaz exercício da profissão, não a benesses pessoais.
As prerrogativas
garantem a efetividade da advocacia, para que cada advogado
possa ser útil aos legítimos interesses do cliente. Seria
preciso mais espaço para o quanto ainda há de ser dito sobre o
tema. Mas, por ora, o essencial é afirmar: advogados não são
bandidos; bandidos não são advogados - nunca o serão!
Fonte:
Publicado no Jornal Folha de S. Paulo, de 30/6/2006, p.
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